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16.12.09

Agricultura e Saúde na cidade é tema de encontro no Rio de Janeiro

Cerca de 300 pessoas lotaram as dependências do Sítio da Galícia, na região de Campo Grande, Rio de Janeiro, entre os dias 26 e 28 de novembro, participando de atividades como: oficinas de práticas agroecológicas nos quintais, alimentação viva e medicina popular, trocas de sementes e mudas, além de Feira de Produtos da Agricultura Urbana e Economia Solidária.

As atividades fizeram parte do III Encontro de Experiências de Agricultura e Saúde na Cidade, organizado por uma rede de atores sociais composta por mais de 30 participantes, grupos, associações e entidades governamentais e do terceiro setor.

Segundo Marcio Mattos de Mendonça, coordenador do programa de Agricultura Urbana da AS-PTA, uma das entidades organizadoras, a união de tantos grupos e pessoas para organizar o encontro ajudou a motivar um processo de mapeamento de experiências de agricultura e saúde na cidade do Rio de Janeiro. “Desde abril, os parceiros têm se dedicado a visitar experiências e, com isso, um processo muito forte de socialização do tema se iniciou, culminando no Encontro que obteve êxito e forte participação popular.”

Da união dessas iniciativas começa a germinar a formação de uma rede de agricultura urbana no Rio de Janeiro e, como fruto dos debates, um documento que será levado ao Encontro Estadual de Agroecologia, em fevereiro de 2010.

Dentre as prioridades pautadas pelas agricultoras e agricultores cariocas, estão ações estratégicas como o estímulo ao enraizamento da agricultura urbana nos grupos e à participação dos jovens. Todos lutam ainda pela inclusão da agricultura urbana como parte das políticas públicas e concordam que é importante pautar o tema nas discussões políticas para acessar recursos em benefício dos grupos.

Como ações práticas, agricultoras e agricultores concordaram em definir uma agenda de trabalhos coletivos para 2010, além de pensarem nas Olimpíadas de 2016 como oportunidade estratégica para a visibilidade da prática no Rio de Janeiro.

E, em meio a tanta atividade, não faltou espaço para as crianças. A Ciranda Infantil, formada por jovens que ajudaram a organizar o Encontro, encarregou-se de cuidar das crianças, filhos e filhas das agricultoras e agricultores participantes, durante toda a programação do curso.

E Minas Gerais?

No meio de tantas experiências cariocas, a participação de 5 agricultoras e um agricultor, vindos diretamente das Minas Gerais, em uma caravana organizada pela Rede de Intercâmbio de Tecnologias Alternativas. Para os representantes de Minas, foi uma oportunidade para observar como se mobiliza politicamente um outro Estado e como a sociedade civil tem abraçado a discussão sobre a agricultura urbana.

Como relata a agricultora e participante do Grupo de Agricultura Urbana do bairro Capitão Eduardo, Jaqueline Souza Martins, esse intercâmbio traz contribuições para a prática e mobilização da agricultura urbana em Minas. “Percebi que lá eles conseguem se articular mais com a questão do artesanato a partir da reciclagem, englobando isso no movimento da agricultura urbana. Nós aqui reciclamos recipientes e os utilizamos para plantar, como os pneus, as latas e bacias, mas lá vimos o uso de materiais, como potes de xampu, retalhos e garrafas Pet, tudo para produzir artesanato. Foi muito interessante ver também a organização da cozinha; havia uma equipe responsável e eles arrumaram uma boa solução de remuneração para essa equipe. No último dia, os visitantes da feira pagaram o almoço e isso foi um jeito de pagar os cozinheiros. Outra questão importante foi que eles conseguiram a maioria dos alimentos do Encontro por meio de doação.”

Outra diferença que se observa na experiência do Rio de Janeiro é o fato de que mesmo dentro da cidade ainda existem áreas classificadas como zonas rurais, o que permite aos agricultores um maior reconhecimento de suas atividades e o acesso a recursos e programas da agricultura familiar. Dentro da área urbana do Rio, 2500 famílias ainda vivem da agricultura. Em Belo Horizonte, uma cidade sem zonas rurais, classificada como 100% urbana, agricultoras e agricultores já não conseguem que suas práticas sejam reconhecidas como principal atividade econômica de suas famílias, de onde tiram seu sustento. Sem zona rural, os agricultores não têm acesso a uma série de benefícios, isenções e financiamentos.

Conhecimentos técnicos também fazem parte da bagagem que as agricultoras e agricultores mineiros levam para casa, como conta Raquel Pereira dos Santos, agricultora do Jardim Produtivo do bairro Cardoso: “Aprendi a tirar muda de uma árvore a partir de um tronco sem nenhum broto. Basta tirar a parte de fora do tronco, envolver a camada que sobra com musgo, que é bem úmido e funciona como se fosse uma terra em volta dessa parte descascada do tronco. Ali, a própria árvore se encarrega de produzir raízes e ramos novos, e com isso se pode cortar essa parte e produzir uma nova planta. Eu já sabia produzir mudas com enxertos, usando especialmente o pé de limão, que funciona como um cavalo para outras espécies de planta; mas desse jeito que aprendi no Rio foi a primeira vez.”

Tanto aprendizado é fruto de um interesse comum. Em todos os cantos do Sítio da Galícia, as conversas e trocas tinham sempre cheiro de terra, comida saudável, sementes crioulas, receitas da sabedoria popular e uma mesma paixão: semear, cuidar, colher, fazendo da natureza uma parceira, que ajuda a promover saúde e bem-estar. E sabe o que mais? Nenhum copo, prato ou talher descartável foi utilizado durante todo o Encontro; práticas ecológicas que vêm se consolidando toda vez que se reúnem pessoas que buscam relações mais harmônicas do ser humano com a natureza.

Por Marina Utsch

Marina Utsch
Agricultores e agricultoras de Belo Horizonte participam, no Rio de Janeiro, do III Encontro de Experiências de Agricultura e Saúde na Cidade

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